Dentes cresceram em três meses
na própria mandíbula do animal; objetivo agora é testar segurança da nova
técnica em seres humanos.
Criar um dente novo a partir de
um velho, e ainda usando o famigerado siso, deverá ser viável em até uma
década. Quem promete é uma dupla de pesquisadores da Universidade Federal de
São Paulo.
Os estudos realizados pelos
dentistas Silvio e Mônica Duailibi no Departamento de Cirurgia Plástica da
Unifesp ainda não são feitos em humanos, mas estão próximos disso.
Por enquanto, o mais recente
resultado científico da dupla, publicado neste mês no periódico "Journal of
Dental Research", mostra que é viável fazer crescer dentes em ratos usando
células-tronco adultas extraídas de um outro dente.
Estudos anteriores do casal
haviam mostrado que é possível fazer o órgão surgir no abdômen do roedor.
Agora, o avanço foi maior.
"Nós conseguimos fazer com que
o dente nascesse no lugar onde ele realmente deveria crescer, na mandíbula",
diz Silvio Duailibi. "O processo ocorreu em três meses e deu origem a um
dente com todas as suas estruturas, mas ainda sem as dimensões normais."
Para chegar aos dentes nos
ratos -o grupo também já testou com sucesso o uso de células humanas neste
processo- é preciso ter em mãos três ingredientes básicos, diz a dupla.
O primeiro são as
células-tronco, que no caso humano poderão ser retiradas do siso. Elas são
colocadas em um polímero que vai servir como uma espécie de "cimento" para
que as células possam ser fixadas na mandíbula. Após fazer esse papel, o
polímero é totalmente absorvido pelo organismo.
O veículo com a matéria-prima
celular ainda precisa de um empurrãozinho, no caso um tecido vascularizado,
para poder fazer com que o dente, ainda sem uma função definida, realmente
cresça.
"Em termos genéticos, ao
usarmos as células de um dente jovem na base do processo, estamos fazendo
despertar uma espécie de memória genética que as células têm", diz Mônica.
Ou seja, usar as polêmicas
células-tronco embrionárias (que são retiradas do embrião morto) não
resolveria muita coisa neste caso, já que estas não possuem memória nenhuma.
Além disso, orientar a
organização dos tecidos celulares para que todas as partes do dente cresçam
corretamente é muito mais fácil com as células adultas. Elas, no passado, já
passaram por este mesmo processo uma vez.
Apesar dos obstáculos
científicos que existem pela frente, é possível, segundo Mônica, imaginar
que em menos de dez anos as pessoas já poderão desfrutar das suas terceiras
dentições biológicas, depois de passarem pela de leite e também pela da fase
adulta.
O mais importante, segundo a
dupla, é ter a certeza de que o método é seguro e confiável. A reintrodução
de células em um paciente, mesmo que seja do próprio, pode embaralhar o
ciclo celular -processo que, em tese, é o mesmo que faz aparecer os tumores.
"Nossa meta agora é testar a
eficácia desta técnica. Mesmo porque, em um primeiro momento, o paciente vai
pagar caro por isso e precisamos ter certeza que tudo vai funcionar como o
esperado", diz Silvio.
A dupla, afirma, está otimista.
"Esse caminho da bioengenharia é uma opção bastante viável não apenas para
os implantes dentários, mas também para todos os transplantes de órgão", diz
Mônica.
Segundo a pesquisadora, no
médio prazo, a técnica pode ser mais barata para as políticas públicas de
saúde do que os tratamentos utilizados hoje, especialmente para os mais
velhos: no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, 56% dos idosos não
possuem sequer um dente funcional
.
Fonte: EDUARDO GERAQUE
Folha de S.Paulo
Atualizado em 18-12-08