O primeiro transplante
utilizando o sangue de cordão umbilical e placentário (SCUP) foi realizado
com sucesso no ano de 1988, no Hospital Saint-Louis em Paris, França, onde
um garoto de 6 anos apresentando anemia de Fanconi foi transplantado com o
sangue de cordão de sua irmã recém-nascida, HLA compatível e saudável.
Comprovou-se que o sangue de cordão umbilical é uma excelente fonte de
Células Progenitoras Hematopoéticas (ou Células Tronco Hematopoéticas - CTH)
e uma alternativa à utilização de medula óssea, para o tratamento de doenças
hematológicas e oncológicas. Seu uso é eficaz dentro de certos limites.
Essa possibilidade de utilização conferiu ao sangue de cordão umbilical
valores especiais, deixando de ser um objeto de descarte e passando a ter
importância terapêutica e científica, o que culminou com a necessidade de
armazenamento dessas células. Foi estabelecido em 1992, nos Estados Unidos,
o primeiro banco de sangue de cordão umbilical e placentário público (BSCUP),
procedimento este que encorajou o estabelecimento de outros BSCUP ao redor
do mundo, resultando em um aumento considerável do número de transplantes
realizados com esse material.
Estima-se em mais de 200.000 unidades de SCUP congeladas em todo o mundo, e
aproximadamente 100 bancos existentes, sendo que 75% são bancos públicos ou
privados sem fins lucrativos. Com relação aos transplantes, já foram
realizados, em todo o mundo, mais de 6.000 transplantes alogênicos
utilizando como fonte o sangue de cordão umbilical. Não há estatísticas que
apontem o uso do sangue de cordão para transplante autólogo, armazenados nos
bancos privados, e nem da eficácia deste
uso (1).
A legislação brasileira permite os dois tipos de bancos: Bancos de Sangue de
Cordão Umbilical e Placentário para uso alogênico não-aparentado, que
constituem a Rede BrasilCord (BSCUP) e Bancos de Sangue de Cordão Umbilical
e Placentário para uso autólogo (BSCUPA). Legalmente, os serviços públicos
só podem trabalhar com os bancos alogênicos, sendo restrito aos serviços
privados apenas a permissão para funcionar como bancos autólogos.
Relacionado ao uso autólogo, estatísticas indicam que, em aproximadamente
20.000 amostras de sangue de cordão criopreservadas, somente uma será usada
em transplante durante os 20 primeiros anos de vida (2,3). Outras fontes
indicam que esta probabilidade é ainda menor e a possibilidade de uso desse
sangue é remotíssima.
Pode ser estimada em menos de 1/200.000 (4). A principal indicação para
transplante, em pacientes com faixa etária até 20 anos, é para o tratamento
da leucemia. Para estes casos, e para os demais em que o paciente seja
portador de doença de natureza genética, o uso autólogo é contra-indicado,
já que as células-tronco presentes no SCUP apresentarão os mesmos defeitos
genéticos; o transplante alogênico apresenta melhores resultados.
O armazenamento de sangue de cordão umbilical para uso autólogo tem gerado
polêmicas e opiniões a respeito de princípios éticos fundamentais, entre
eles, o da solidariedade e beneficência, sem os quais nenhuma sociedade pode
sobreviver; e o princípio da autonomia para decisão com base em informações
corretas (2,5,6). Os BSCUPA utilizam de propagandas que extrapolam os dados
científicos comprovados, e que estão voltadas principalmente para atingir os
pais em um momento de vulnerabilidade pelo nascimento do filho, argumentando
quanto à possibilidade de uso do material por parentes, o que
descaracterizaria a qualificação de “autólogo” (conforme estabelecido na
legislação RDC n°.153 de 14 de junho de 2004).
Na Europa a legislação é extremamente rigorosa com os bancos de sangue de
cordão privados para uso autólogo, sendo proibidos, por exemplo, na Itália e
França, países que estimulam a doação de sangue de cordão umbilical para uso
alogênico não-aparentado (5).
Neste sentido, ao estimular a doação de SCUP para uso alogênico
não-aparentado, aumentar-se-á a quantidade de amostras armazenadas, e quando
os BSCUP tiverem um número adequado de amostras congeladas, ter-se-á
amostras de sangue com uma variabilidade genética suficiente para aumentar a
probabilidade de qualquer cidadão encontrar um doador compatível quando
necessitar.
O uso de sangue, outros tecidos, células e órgãos humanos para tratamento de
agravos é uma tecnologia já disponível no Brasil. Para garantir a qualidade
e a segurança destes tratamentos, a vigilância sanitária elabora normas e
regulamentos técnicos, inspeciona os serviços credenciados, capacita
profissionais e monitora a ocorrência de eventos adversos com a utilização
das tecnologias disponíveis. Na Anvisa, essas atividades são desempenhadas
pela área de Sangue outros Tecidos, Células e Órgãos.
Transfusão de sangue, implante de tecidos e transplante de órgãos tem sempre
um risco para o receptor. Produtos e processos sem padrão de qualidade podem
acarretar agravos ao paciente, entre os quais transmissão de doenças como a
AIDS, hepatites B e C; além de resultados sem eficácia podendo causar graves
danos a saúde do usuário. A vigilância sanitária trabalha para reduzir ao
mínimo esses riscos.
Em Sangue, Tecidos e Órgãos do site da Anvisa estão disponíveis: legislação
vigente que regulamenta essas atividades, eventos nacionais e internacionais
e publicações dessas especialidades. Constam também informações dessa
gerência e seus parceiros para maior eficiência das ações de garantia de
qualidade para os cidadãos que venham a submeter aos procedimentos de
implante ou transplante.
Bibliografia:
1. Steinbrook R. “The cord-blood-bank controversies”. The New England
Journal of Medicine. 2004 Nov. Vol.351 N°22:2255-7
2. Opinion of the European Group on Ethics in Science and New Technologies
to the European Commission. “Ethical aspects of umbilical cord blood banking”.
Opinion N°19 2004
3. Annas GJ. “Waste and Longing – The Legal Status of Placental-Blood
Banking”. Legal Issues in Medicine. 1999 Vol.340 N°19:1521-1524
4. Work group on Cord Blood Banking. “Cord blood banking for potencial
future transplantation: Subject Review”. Pediatrics 1999 Jul.
Vol.104:116-118 (this information was current as of June 28,2005)
www.pediatrics.org/cgi/content/full/104/1/116 (em inglês)
5. French National Consultative Ethics Committee for Health and Life
Sciences. “Umbilical cord blood banks for autologous use or for research”.
Opinion N°74 2002
6. Dalle JH. “Conservation du sang placentaire à la naissance, banques
publiques, banques privées: elements de réflexion”. Archives de pédiatrie
2005 12:298-304

Fonte:http://www.anvisa.gov.br