Foi sepultado na manhã de ontem, no Cemitério São Pedro, em Catalão (a 255km
de Goiânia), o corpo do metalúrgico Joaquim Raimundo Neto, 23. O rapaz
faleceu na manhã da segunda-feira, 8, em Guarulhos (SP), em decorrência de
uma insuficiência respiratória agravada pela leucemia mielóide aguda,
descoberta em novembro. Testemunha de Jeová, o jovem se recusou a receber
tratamento, alegando motivos religiosos. No dia 28 de novembro, ele viajou à
cidade paulista em busca de tratamento alternativo.
Apesar da dor em comum pela perda, o motivo que reuniu a família e amigos do
rapaz era distinto. De um lado, parte dos familiares, residentes em Catalão
e também testemunhas de Jeová, alegavam que a morte de metalúrgico foi
vontade divina. Do outro, os irmãos, Marco Aurélio e Fernando, e outros
parentes choravam a morte precoce do metalúrgico e a escolha “errada” do
tratamento.
Indignado com a morte do irmão, Marco Aurélio do Couto, 34, lamenta a
escolha da terapia alternativa em vez da transfusão de sangue. “Ouvi do
médico em Goiânia que se meu irmão aceitasse a transfusão de sangue ele
teria 80% de chance de se curar. Mas não quiseram fazer a transfusão”,
chora. Marco Aurélio não tem dúvida de que o irmão Joaquim faleceu por não
receber cuidados adequados. Ele questiona o tratamento oferecido em
Guarulhos. “Como posso confiar em um tratamento de um hospital, cujo nome
sequer é revelado. Por que não dizem o nome da instituição?”, indaga.
Dois membros da Comissão de Ligação com Hospitais (Colih), das Testemunhas
de Jeová, Éber da Conceição Barbosa, 36, e Tarcísio Oliveira Rios, 30,
estiveram presentes em Catalão. Os dois vieram de Guarulhos para representar
o hospital e prestar homenagens à família.
Éber e Tarcísio explicam que a função da Colih é garantir às testemunhas de
Jeová o direito de receber o tratamento mais adequado à fé professada. Eles
auxiliam na escolha do hospital, dão suporte emocional e espiritual,
transporte e hospedagem para os membros da igreja. Em caso de óbito, cabe a
eles assessorar a família no velório e sepultamento. “O objetivo é que a
pessoa seja cuidada por inteiro e não pela metade, como foi em Goiânia”,
ressalta Éber.
“Sangue não salva vida”.
Assim que chegou a Guarulhos, o metalúrgico foi submetido a tratamento
denominado “alternativo”, que não utiliza transfusão de sangue. Joaquim
teria recebido doses de eritropoetina e hemax, medicamentos que aumentam a
produção de glóbulos vermelhos. Também foram administradas doses de sulfato
ferroso, que auxilia no tratamento da deficiência em ferro, vitaminas B6 e
B12 e ácido fólico. Além disso, por onze dias , Joaquim fez cinco sessões de
quimioterapia. “Foi uma fatalidade, pois tudo o que se podia fazer por ele
foi feito”, afirmou Éber da Conceição Barbosa, membro da Comissão da Ligação
com Hospitais, das Testemunhas de Jeová. Para Tarcísio Oliveira Rios, outro
membro, o tratamento é mais que adequado e que transfusão não é a única
solução para quem tem leucemia. “Sangue não salva vida”, destaca.
“Joaquim faleceu porque estava muito doente. O tratamento oferecido em
Goiânia agravou o estado de saúde dele”, diz Tarcísio. O hematologista Yuri
Vasconcelos, responsável pelo tratamento de Joaquim no período em que ele
esteve em Goiânia, não foi encontrado para comentar as afirmações. Em defesa
dele, no entanto, o também hematologista e professor da Faculdade de
Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) Celso da Cunha Bastos
afirmou que o tratamento feito em São Paulo é ineficaz e poderia agravar o
estado de saúde do rapaz.
Celso explica que a leucemia é causada na medula óssea, responsável pela
produção de células sangüíneas. O doente produz apenas células defeituosas,
que não cumprem com as funções no organismo. Assim, qualquer medicamento que
estimule a produção celular não resolverá o problema, mas encherá o corpo do
paciente com mais células anormais.
O único tratamento considerado eficaz pelos médicos é a quimioterapia e
posterior transplante de medula óssea. Paralelamente, como era o caso de
Joaquim, o médico pode pedir transfusão de sangue para garantir que ele
sobreviva até a cura. Não há meios alternativos para fortalecer o paciente.
Opiniões diversas.
Amigos de Joaquim têm opiniões diversas a respeito da posição do rapaz. O
colega de trabalho Bruno Henrique Rosa, 21, afirmou estar surpreso com as
notícias e que o amigo nunca comentou que era testemunha de Jeová. “O
assunto é muito delicado. Acho que só na hora do aperto é que poderia
escolher o melhor para mim. Espero que ele tenha feito o certo.”
A enfermeira Izabel Georgina Brilhante, 36, aprova a escolha do amigo.
“Quisera eu ter a fé de Joaquim. Ele foi fiel aos ensinamentos religiosos
que recebeu.” Mesmo sendo uma profissional de Saúde, ela não titubeia em
responder que a transfusão de sangue, talvez, não fosse favorável ao rapaz.
“Quantos recebem transfusão e de nada adianta? Ele morreu porque não teve
tempo de encontrar um doador de medula e não porque não fez a transfusão”,
argumenta.
Religiosos
Fora as Testemunhas de Jeová, nenhuma outra religião se opõe à transfusão de
sangue. O padre José Francisco Fernandez explica que a posição das
Testemunhas se deve a interpretações literais da Bíblia. Outras religiões,
no entanto, avaliam o contexto histórico em que os textos foram escritos e
os adéquam ao contexto atual. Ele lembra que a posição da Igreja Católica
moderna é preservar a vida: “A vida vem em primeiro lugar.”
O espírita Sílvio Carvalho Neto ressalta que a transfusão de sangue é um
avanço da ciência e, portanto, benefício para a humanidade. Para ele, não há
qualquer restrição ao tratamento previsto na doutrina espírita. “O médico
também é um enviado de Deus”, avalia.
O pastor Joer Correia, por sua vez, lembra que, apesar dos segmentos
pentecostais e neopentecostais acreditarem na cura direta pelas mãos
divinas, a transfusão de sangue não é rejeitada por nenhuma igreja
evangélica. Ele explica que curas diretas são resultados imediatos,
milagrosos, que, supostamente, dispensariam tratamentos médicos. A posição
não é totalmente partilhada pelos protestantes históricos, segmento do qual
Correia faz parte. “Acreditamos na cura divina, mas ela pode acontecer por
diversos meios, inclusive médicos.”
“Foi um suicídio planejado”.
Inconformado, Marco Aurélio do Couto afirma que o irmão assinou, em Goiânia,
termo onde proibia doação de órgãos e transfusão de sangue. Ele questiona,
no entanto, os meios pelos quais ele desautorizou o tratamento. “Meu irmão
queria viver. Ele estava sob muita pressão”, afirma.
“Aquilo foi um suicídio planejado por eles”, acusa. O irmão seria pessoa
alegre e que, em outras circunstâncias, lutaria pela vida com as melhores
armas disponíveis. Ele lamenta ter sido proibido pela mãe e tios de ver
Joaquim ainda com vida. “Só vi meu irmão no caixão”, conta.
Embora não dê detalhes, Marco Aurélio adianta que pretende entrar com ação
contra a igreja, de modo a conseguir punição: “Quero justiça.” Ele também
manifesta o desejo de processar a mãe e os tios de Joaquim (os dois são
irmãos apenas por parte de pai), que teriam influenciado o rapaz a rejeitar
o tratamento. “Nossa indignação não será enterrada com Joaquim.”
Ministério Público
O promotor Isaac Benchimol afirmou ontem que convocará a família de Joaquim
e a igreja da qual ele participava para esclarecer as circunstâncias da
morte do rapaz. Ele deseja saber se houve negligência no tratamento do
metalúrgico durante o período em que ele esteve em São Paulo: “Mandarei
investigar em que circunstâncias ele morreu.”
Benchimol descarta a possibilidade de a família ser processada, já que
Joaquim era maior de idade, estava lúcido e não possuía deficiência que o
tornasse incapaz de tomar decisões. Já a igreja pode ser punida, desde que
se comprove responsabilidade dela na morte do membro.
Matheus Álvares Ribeiro
Da Editoria de Cidades
Márcia Fabiana
DA EDITORIA DO DMREVISTA.
Fonte: Site UOL
Atualizado em 18-12-08